Arquivado em: Desassossego, Lata | Tags: choro, conselhos, emoção, Filtro solar, intercâmbio, Mary Schmich, nostalgia, passado, saudade, Sunscreen, vida
Em 1997 uma colunista do Chicago Tribune chamada Mary Theresa Schmich escreveu uma coluna com o discurso que ela faria se fosse chamada para falar em alguma formatura. O discurso tinha o título desse post. Mas ficou mais conhecido como “Wear Sunscreen”, ou simplesmente “Sunscreen”, ou “Use Filtro Solar” aqui no Brasil, onde foi traduzido e gravado na voz de Pedro Bial.
Assisti o discurso pela primeira vez em 2003, na escola. Um dos nossos colegas trouxe o vídeo produzido por Baz Luhrmann, que é baseado no discurso, e apresentou isso para um auditório cheio de formandos. Desnecessário dizer que quase todo mundo caiu no choro.
Eu não me emociono fácil. Mas o que me emociona uma vez, me emocionará sempre. Como uma cena em “Stepmom”, ou histórias de adoção. Eu choro todas as vezes que ouço. Inevitavelmente. Com esse vídeo ocorre a mesma coisa.
Acho que os conselhos oferecidos nesse discurso são simplesmente geniais. Todas vez que eu ouço, me ajuda a focar no presente e colocar os pés no chão. Mas o mais importante: me ensina a ter esperança.
O problema? Ele também me faz sentir saudade. Uma saudade imensa. E um desespero por me lembrar de todas as coisas boas que eu vivi e que eu deixei passar. Abrir o HD externo do coimputador é como abrir um caixa guardada há muito tempo no armário (não com o mesmo apelo nostálgico, claro. Mas a sensação é basicamente a mesma).
Estava olhando as fotografias do meu ano de intercâmbio. Fotografias com ex namorados, fotografias com amigos que eu deixei partir… Momentos que eu não aproveitei da melhor forma. E por isso sinto essa imensa frustração. Eu não vivi sem tempos mortos. Minha vida é cheia de espaços vazios de sentido, porque eu estava ocupada demais tendo medo de viver e me machucar e chorar e arriscar.
Não deveria ser difícil viver o presente, certo? Ser feliz com o que se tem, relaxar, gostar de si mesmo, aproveitar ao máximo todas as oportunidades que surgem. Isso tudo deveria ser simples, deveria ser fácil, deveria ser o básico.
Mas não é.
Não para mim e não para um monte de gente que eu conheço.
Eu estou vivendo um desses momentos “mortos” ultimamente. Sempre com as 4 patas atrás, evitando me machucar. Mas e aí? Eu não me sinto viva. Eu não estou viva. Por mais que eu tenha sofrido no passado, eu me sentia viva passando por aquilo tudo. Mesmo a dor de uma rejeição ou de uma partida me inspiravam a escrever algo, a pensar em algo.
Eu não quero que minha vida seja um texto em pirâmide invertida, objetivo, seco, informativo. Eu quero um nariz de cera… Quero um texto literário e gonzo, no qual eu participe ativamente do que estou apurando. Eu quero sentir que estou fazendo algo na vida e não simplesmente contando os dias para que algo melhor aconteça.
While I was there I was counting the days to come back. Now that I am here I am counting the days to go back. I just want to stop counting days.
Por isso, de vez em quando eu assisto ao vídeo novamente para avaliar se estou seguindo os conselhos de Mary.
Por enquanto ainda não consegui cumprir quase nenhum.
Mas eu uso filtro solar. Todos os dias.
Eu sempre gostei muito de namorar. Por isso eu sempre estive disposta a começar um relacionamento desde o meu primeiro “ficante sério”. Para ser sincera não era muito difícil. Parecia que logo que eu acabava um relacionamento, outro aparecia no horizonte e eu já estava compromissada novamente.
Claro que isso massageava meu ego. Logo eu que fui o patinho feio da turma por toda a pré-adolescência, adorava ser reconhecida como a namoradeira. E essa fase veio logo após de um dos piores períodos da minha vida. Então tudo era flores.
O problema é que eu não percebi que, sem querer, estava me perdendo pelo caminho. E que apesar de adorar namorar e de adorar estar compromissada, eu não tinha a mínima coragem de me comprometer em relacionamento nenhum. Eu jamais, por um segundo, pensei em abrir mão de nada meu em favor de um relacionamento. Eu não deixaria de fazer nada se um namorado meu me pedisse. Mas então de que adiantava o relacionamento?
Eu me definia através deles. De todos eles. Minha pré-adolescência eu passei como patinho feio, minha adolescência como deprimida. E depois eu era sempre a namorada de alguém. E isso era o que me definia. Como pessoa num grupo, como mulher, como eu. Eu só conseguia ser em relação a alguém. Mas quem sou eu afinal de contas?
Ontem me deparei com um tópico no orkut pedindo que as pessoas enumerassem 20 coisas sobre elas mesmas. Eu não consegui pensar em 3 sobre mim. Um amigo meu uma vez me pediu que enumerasse 5 razões porque um cara poderia se interessar por mim. Eu mal consegui pensar em uma. E ele me mandou um depoimento lindo, expondo tanta coisa sobre mim. Todos os meus melhores amigos concordaram. E eu não me reconheci em nenhuma palavra.
Mas afinal de contas, se eu sou essa pessoa tão legal e divertida e simpática e bonita, como só eu não conseguia enxergar isso? Será possível que eu sou tão cega em frente a um espelho?
Sim.
E sinceramente me assusta muito começcar qualquer outra coisa na minha vida sem descobrir primeiro quem é essa pessoa estranha que aparece refletida em vitrines e espelhos. É um caminho bem doloroso esse de se descobrir. E é uma viagem difícil de ser feita. Mas eu finalmente estou disposta a fazê-la da única forma possível: sozinha.
Estou há 1 ano sem namorado. É claro que eu sinto falta do carinho, das conversas, da cumplicidade e do companheirismo. Mas agora eu decidi por mim. Decidi passar por isso e posso dizer com tranquilidade que não estaria melhor se estivesse namorando.
A arte de estar sozinha inclui habilidades quase mágicas que a muitas pessoas nem acreditam que possam existir tais como ir ao cinema sozinha, ir a um restaurante sozinha, viajar sozinha, tomar vinho sozinha, assistir a DVDs sozinha (tomando espumante e comendo sushi), ir à praia sozinha, ir a um bar sozinha, ir a um show sozinha. Estar sozinha, enfim. E estar feliz.
Às vezes acho que sou um tipo de aberração porque eu realmente gostava de fazer tudo isso (já fiz todas as coisas listadas acima). Mas desde que comecei a ser uma serial girlfriend não consegui fazer mais nada disso. Em algum lugar nos últimos 5 anos eu me perdi. E eu sinto muita saudade de mim mesma.
Mas se achar não é fácil nem indolor. Porque uma vez que você perde o referencial, não sabe mais onde está. E não sabe o que está por vir.
A parte boa é que eu decidi dar os primeiros passos. E estou comprometida a aproveitar cada pequeno pedaço do caminho. Cada pequena surpresa. Até o fim.